HISTÓRIA DA ASSEMA

• OS PRIMÓRDIOS
Em 1954, logo após a implantação da ANCAR-CEARÁ, foi criada uma Associação de Funcionários que ganhou o nome CASANCAR-CE. Para manter o funcionamento da entidade foi instituída uma contribuição de cada sócio e a própria ANCAR-CEARÁ entrou com apoio logístico, como papel e a ajuda de seus funcionários. A associação era dirigida por um ou mais sócios, invariavelmente ligados à administração da empresa.

Entre os dirigentes desta entidade e os da ANCAR-CE sempre existia uma ligação muito estreita. Alguns problemas surgidos entre ambas eram “facilmente contornados” porque o grupo dirigente da CASANCAR-CE, por sua ligação com os dirigentes da ANCAR-CE, evitava indispor-se com estes. Como um dos serviços da CASANCAR-CE era o empréstimo de dinheiro a seus filiados, geralmente a causa dos desentendimentos estava vinculada às ações da Associação quando esta fazia concessões de empréstimos a determinados sócios preterindo outros, principalmente a gente ligada à direção da empresa. Enquanto alguns conseguiam vários financiamentos, outros levavam muito tempo para obter apenas um. Isso sem falar nos que até desistiam.
Comumente a verba da entidade, destinada aos empréstimos, nunca era suficiente para atender à demanda. Para contornar a situação, a norma seguida era atender os pedidos por ordem de chegada. Só que aqueles que detinham maior prestígio estavam sempre infringindo aquele preceito. Essa relação perdurou por muito tempo, mesmo com o crescimento da ANCAR-CE e continuou após sua transformação em EMATER-CE, no ano de 1976, e da criação da ASSEMA substituindo a CASANCARCE.
Percebe-se que o controle da direção da empresa sobre a Associação já começou forte, desde da criação da CASANCARCE. Nesta relação, como frisamos acima, havia apoio logístico parte da empresa. Em troca a ASSEMA mantinha uma política assistencialista para os sócios, inclusive com assistência médica, por outro lado a empresa poderia facilmente controlar qualquer manifestação reivindicatória de seus servidores.
O crescimento da EMATERCE tomou um impulso muito grande com o advento dos programas especiais (POLONORDESTE por ex.) implicando, com isso, em mudanças também em seu público e metodologia de trabalho. Neste ponto, desejamos abrir um parêntese para ilustrarmos, com mais informações, uma importante fase da história da Extensão Rural no Ceará.
Não podemos deixar de registrar que o crescimento do serviço de Extensão Rural no Ceará se deu principalmente no período pós 64. Modelo americano imposto, rigorosamente hierarquizado, dificultou bastante o avanço de qualquer grupo que não tivesse a tutela dos dirigentes maiores da EMATERCE, considerados o s principais líderes.
A partir de 76, com a chegada dos programas especiais, houve uma mexida na metodologia do serviço de Extensão Rural do Ceará. Pela nova sistemática, a EMATERCE foipraticamente obrigada a executar aqueles programas e a obedecer sua filosofia. Eles tinham como pano de fundo uma discussão mais abrangente dos problemas que estavam emperrando o desenvolvimento rural. A concentração da terra e suas graves conseqüências era um dos principais problemas existentes.
A EMATERCE, que até então só trabalhava com os chamados médios e grandes produtores rurais, passou a incluir na sua ação os pequenos produtores (com terra e sem terra). Uma exigência daqueles programas, voltados exclusivamente para esses dois tipos de produtores. Para isso, teve que treinar todo o seu corpo técnico visando a utilização de uma nova estratégia que lhe possibilitasse atender grande número de produtores.
Estudos dos programas especiais revelaram um dado importante: os pequenos produtores são os principais responsáveis pelo maior volume da produção destinada a alimentar a maioria da população.
A estratégia básica em voga na época era o planejamento participativo. Toda a bibliografia que versava sobre organização dos produtores, participação crítica, processo democrático, etc, foi utilizada na capacitação dos técnicos. A cultura autoritária, predominante na instituição, constituía enorme resistência no meio técnico para absorver a nova metodologia. Várias causas, entre elas o terrorismo cultural (resquício da ditadura militar) de um lado, e do outro, a postura autoritária de grande parte dos dirigentes da empresa, explicam a dificuldade de absorção do novo conhecimento.
Em 1980 uma mudança em todo o corpo dirigente da EMATERCE favoreceu à reestruturação da empresa. Esse fato permitiu aprofundar a implementação dos programas que davam apoio aos pequenos produtores. Mais cursos foram realizados e mais técnicos foram envolvidos.
Em 1985 foi criado o Núcleo de Organização Rural para dar mais apoio às políticas voltadas para o atendimento aos pequenos produtores. Esse grupo teve uma participação muito importante na discussão crítica sobre os “pacotes” tecnológicos defendidos pelos órgãos oficiais de pesquisas. Haja vista que as propostas oriundas daquelas pesquisas não atendiam às necessidades dos pequenos produtores rurais.
Os componentes do Núcleo de Organização Rural argumentavam que a solução dos problemas tecnológicos em si não seriam suficientes para elevar o nível de renda das famílias rurais. Outros problemas de ordem estrutural, a questão da reforma agrária, por exemplo, tinham que ser atacados e a empresa deveria atuar também sobre eles, defendia o NOR. Essa nova sistemática de atuação da empresa deu margem a uma riquíssima discussão no âmbito do seu corpo técnico. A partir de então, desenvolveu-se uma massa crítica, principalmente entre aqueles que atuavam na ponta.
A realidade profissional, porém, levou-os a perceber um mundo de contradições. Uma delas, só para ilustrar: enquanto os diretores da EMATERCE defendiam que os técnicos de campo estimulassem a participação dos pequenos produtores na definição dos programas, expunham sua postura autoritária diante da discussão ou da reivindicação dos problemas daqueles servidores. Eles perceberam, também, que a direção da ASSEMA era sempre controlada por pessoas que tinham vínculos com a direção da empresa.

• Aqui começa uma nova história da Associação dos Servidores da EMATERCE
Os problemas dos servidores também cresceram com o crescimento da EMATERCE e se despertou, no seio da categoria, que a ASSEMA, da maneira como vinha sendo administrada, não correspondia à demanda dos seus associados – os servidores da EMATERCE. O clima de insatisfação ganhou corpo e um grupo de servidores resolveu se organizar e partiu para disputar a eleição da diretoria da ASSEMA. Não conseguiu eleger o presidente mas, como a disputa era por cargo e não por chapa, isto é, se votava nos indivíduos (candidatos) e não na chapa como um todo. Mesmo assim o grupo de oposição conseguiu elegeu dois companheiros: Antônio José e Socorro Gomes. Nessa disputa foi possível perceber o empenho de alguns diretores da EMATERCE em eleger os candidatos da “situação” como era de costume.
Logo no início dessa gestão, o novo presidente tentou, de várias formas, envolver os dois companheiros oposicionistas no processo administrativo tradicional - da administração das conveniências, numa operação articulada com a direção da EMATERCE, já que ele era coordenador de um departamento que englobava toda a política de pessoal da empresa. Mal sucedido na empreitada, passou a fazer pressão sobre Antônio José e Socorro Gomes. Para frustração do grupo, Antônio José logo renunciou, ficando somente a companheira Socorro Gomes como representante da oposição na diretoria da ASSEMA. Ela continuou recebendo pressões cada vez mais fortes, inclusive ameaça de agressão física. Porém não se curvou e manteve-se firme na função de secretária da entidade, mas, percebeu que permanecendo na diretoria da ASSEMA poderia realizar um grande trabalho em prol do grupo de apoio. E assim procedeu. Passou a denunciar para o grupo, que já não era pequeno, todas as artimanhas do presidente. Este, como não pôde dobrá-la, passou a bloquear sua participação nas reuniões da diretoria da ASSEMA Cada assunto importante que exigisse uma reunião, o presidente a marcava na ausência de Socorro Gomes. Ela desmarcava uma viagem ou negociava outro tipo de trabalho que a fizesse permanecer na sede da empresa. Tudo para participar das reuniões da Associação. Socorro estava sempre atenta a tudo e não parava de informar o que sabia sobre a administração da ASSEMA onde quer que estivesse. Esse trabalho persistente se prolongou até o fim daquela gestão.
As informações de Socorro Gomes foram muito importantes para o grupo compreender que não seria fácil conseguir ganhar a ASSEMA para as lutas em defesa dos interesses dos servidores.
Os “confidentes”, então, passaram a se reunir com mais freqüência, agora, em número bem maior e mais consciente. Quando se aproximou o novo período eleitoral da ASSEMA, os companheiros se cotizaram e, num final de semana, realizaram um grande seminário em Fortaleza. Participaram do encontro representantes de todas as regiões do Estado. Na oportunidade, fez-se uma avaliação de todo o processo, definiram-se uma proposta política, as normas e os nomes para a composição da chapa que disputaria a eleição. Uma decisão primordial foi tomada naquela ocasião: a de que “quem estivesse ocupando cargo de confiança na diretoria da empresa, embora apoiando o grupo, estaria fora da composição da chapa”.

• A CAMPANHA
A divulgação do resultado do seminário do dia 4 de janeiro de 1986, no âmbito da EMATERCE, causou grande repercussão nos setores conservadores da empresa e provocou reação imediata. Na primeira reunião, realizada após o seminário, uma comissão de funcionários do regional de Fortaleza trouxe para o grupo a posição de apoiar a chapa. Uma reivindicação no mínimo descabida foi apresentada como condição para aquele apoio: a substituição de Socorro Gomes da cabeça de chapa. A alegação: por ser mulher, Socorro Gomes não teria capacidade de defender os direitos de todos os servidores. A ótica: para a comissão, as mulheres na extensão rural eram seres subservientes, totalmente submissas aos homens, principalmente aos agrônomos que detinham o comando da empresa. A princípio a companheira relutou acerca dessa posição. Mas naquela reunião se percebeu que a pressão política sobre os trabalhadores - não somente sobre as mulheres mas também sobre os demais servidores - era muito forte. Conseqüência: Socorro Gomes bateu na mesa e decidiu: seu nome seria a cabaça de chapa! Consciente da importância de sua participação naquele processo, a companheira alertou: aqueles que não quisessem apoiá-la exerceriam seu direito mas, a decisão de enfrentar a campanha na cabeça de chapa era, para ela, fato consumado. A partir daquele instante uma nova etapa foi iniciada concretamente, marcando um novo horizonte para a ASSEMA. Vitorioso esse movimento - RENOVAÇÃO e PARTICIPAÇÃO - (lema da campanha) continuou presente em toda a gestão da ASSEMA 87/89. As pressões continuaram através de telefonemas, ameaças, etc. Assim mesmo a campanha foi em frente.
Socorro Gomes foi eleita presidenta e fez uma das mais brilhantes administrações na ASSEMA - reconhecida até hoje.
A diretoria da ASSEMA engajou-se, realmente, na defesa dos interesses coletivos e individuais dos servidores; continuou prestando os serviços médico-hospitalares e acrescentou os de natureza jurídica; resgatou os princípios de moralidade, transparência, legalidade e justiça na administração; baniu, totalmente, a prática “clientelista” que se fazia presente até então na Associação Com sua ação política ética e consistente ela resgatou o ânimo dos servidores. E trouxe à participação aqueles que haviam perdido a força para lutar. Foi uma gestão pontilhada de grandes mudanças e realizações. Em momento algum a ASSEMA atrelou-se à diretoria da EMATERCE, porém com esta mantinha relação de respeito e de entendimento mas, com autonomia. Desenvolveu-se, então, um grande trabalho de mobilização culminando, inclusive, com uma greve na EMATERCE. Com a FASER e CÓ-IRMÃS, nas reuniões e lutas empreendidas pela manutenção de recursos orçamentários para o Sistema Brasileiro de Assistência Técnica e Extensão Rural – SIBRATER e, posteriormente, para a permanência da EMBRATER e do próprio Sistema Nacional de Extensão Rural. Fato inédito, a realização de duas caravanas a Brasília para fortalecer a luta nacional dos extensionistas rurais na defesa da EMBRATER, ameaçada de extinção pelo governo Sarney.
Um dado digno de registro na história das lutas sindicais: Socorro Gomes engajou-se de corpo e alma na luta dos servidores públicos como membro do MOVA-SE - Movimento de Valorização do Servidor Público, que resultou na criação do Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Estadual do Ceará - MOVA-SE. Em dois anos de administração da ASSEMA, nunca se fez tanto pela organização dos trabalhadores no Serviço Público. A gestão Socorro Gomes, a bem da verdade, foi a síntese da atuação política de um grupo bem articulado de servidores nos diversos escritórios da EMATERCE.
Apesar de todo esse esforço organizativo, é lamentável registrar: logo após, alguns servidores - embora lançados e apoiados pelo grupo de apoiadores à ASSEMA - eleitos presidentes não tiveram um desempenho político à altura de lideranças autênticas, realmente comprometidas com os propósitos e interesses dos trabalhadores da Extensão Rural, sintonizados com os interesses gerais dos trabalhadores.
Um momento de forte tensão na EMATERCE, envolvendo ASSEMA (enquanto diretoria) associados e servidores, e a própria direção da empresa ocorre em dezembro/95.
A confusão deveu-se a iniciada liquidação do patrimônio da empresa, para pagamento de dívidas trabalhistas. Em decorrência, gerou pânico nos servidores. No calor das emoções, os que não fizeram acordo e ainda permaneciam na empresa foram acusados de conduzir a empresa para o caos. Por isso, muitos servidores pressionaram a direção da ASSEMA para realizar uma Assembléia Geral, objetivando discutir a questão suscitada. Os mais exaltados queriam a renúncia da diretoria da ASSEMA, uma vez que o seu presidente, por ser também um dos que se achavam na justiça, estaria facilitando o andamento da execução das sentenças judiciais, em detrimento da empresa.
Foi marcada e realizada a assembléia solicitada. Sentindo a gravidade da situação reinante, a direção da ASSEMA articulou-se com diversas entidades representativas de trabalhadores para comparecerem a assembléia marcada. Mediante fundamentada discussão, a maioria dos servidores presentes convenceram-se que o caminho não era simplesmente pedir a renúncia da diretoria da ASSEMA. Mesmo porque esta vinha se mantendo numa linha política de autonomia e independência e, se alguma proteção vinha sendo dada aos discordantes do acordo ainda vinculados à empresa, era apenas reconhecendo o direito deles de exercerem a cidadania. Ao final, chega-se ao bom termo, a assembléia aprovou todas as proposições da mesa que, ao mesmo tempo defendiam o melhor aparelhamento da EMATERCE, ameaçada pelo governo e ratificava a atual diretoria da ASSEMA, fortalecendo-a na sua legítima luta em defesa dos direitos dos servidores.
Assim, com essas e outras decisões políticas firmes e coerentes e de resistência às pressões, marcaram a administração de Flávio Lima Verde / Thomas Edson Góes.
A partir da gestão Roberto Rios (89/91), os autores dessa resumida história, procuram, intencionalmente, apenas captar, interpretar e analisar fatos políticos de dirigentes que evidenciassem a coerência e firmeza do eixo político imprimindo às sua(s) gestão(ões). Na gestão Socorro Gomes (87/89) foi definido e praticado esse eixo deixando o exemplo para as administrações subseqüentes. Se esse exemplo foi seguido, há aqui a visão dos autores, todavia a palavra final - o julgamento - fica para a coletividade de servidores da Extensão Rural do Ceará.
Feita essa observação dos autores, fica claro que em nenhum momento omite-se as ações e realizações dessas administrações com o intuito de desvalorizá-las. Apenas, os autores acham que a direção política imprimida aos movimentos reivindicatórios e políticos, proporciona às condições à obtenção de maiores ganhos para as categorias trabalhadoras, e à fortificação de suas organizações.

Dessa maneira não se pode desvalorizar as realizações com as que a seguir se relaciona:
- O movimento empreendido em defesa da manutenção da EMATERCE na administração de Roberto Rios e continuado na primeira gestão de Zilval Fonteles; os seminários de capacitação de servidores e à realização de diagnóstico e proposições para uma proposta de trabalho da Extensão Rural do Ceará - nas gestões de Zilval Fonteles; a grande campanha em prol da permanência da EMATERCE realizada nos grandes veículos de comunicação de massa, TV, rádio e jornais, na administração de Flávio Lima Verde e Góes; a continuidade nessas administrações dos serviços médico-hospitalares e jurídicos e das campanhas salariais; enfim, muitas outras.

Osvaldo Holanda:
Engenheiro agrônomo, ex-extensionista rural da EMATERCE e, atualmente, Conselheiro da Fapece